Você realmente sabe de onde vem?
- Bruna Ventre

- há 2 dias
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A busca pelos ancestrais de minha mãe foi algo surpreendente - deixa eu te contar. Da parte do meu avô, quando decidi buscar a família foi fácil pois temos ainda familiares distantes que vivem em Cosenza, no sul da Itália, de onde meu avô migrou. Agora da parte da minha avó, o que achei que seria fácil por todas
as histórias que ela conta de seus pais, se tornou algo demorado e também com um final curioso e inesperado.

Desde sempre meus familiares falaram que minha avó era de origem alemã e meu avô de origem italiana. Até aí tudo certo, isso foi o que falamos e ouvimos a vida toda nas histórias de almoço de domingo. Escutei muitas vezes minha mãe contando como fazia massa com sua nona, como minha avó adorava comer chucrute, prato típico alemão, e muitas vezes fazia para nós experimentarmos, como falavam somente alemão em casa na época e com a falta de prática perdeu-se o idioma hoje em dia.
Pois bem, tudo começou por volta de março de 2026 quando eu estava morando no Rio de Janeiro e decidi ficar em São Paulo um tempo até voltar a trabalhar na cidade maravilhosa poucos meses depois. Minha avó de 96 anos mora sozinha e eu me ofereci para ficar na casa dela, a ajudando na rotina e claro, aproveitando esse momento pra curtir mais a presença dela porque quando eu era criança éramos grudadas.
Tudo estava correndo bem e enquanto estava lá eu já tinha essa curiosidade em conhecer mais sobre as histórias de meus ancestrais e comecei a fazer perguntas pra minha avó sobre sua infância, como era seu lar com os pais, a convivência com suas irmãs, como conheceu meu avô. Nessas muitas lembranças que ela compartilhou, fui reunindo tudo isso e criando um quebra cabeça em minha cabeça como se eu quisesse encaixar todas as informações em uma linha do tempo.
Em uma dessas noites conversando sobre seu passado, pegamos aquelas caixas com fotos reveladas que guardamos em algum canto da casa e raramente visitamos, e começamos a olhar uma por uma. Conforme ela passava cada foto, ia relembrando situações da vida e falando o que lembrava sobre elas. Foi um dia muito gostoso e que aprendi muito sobre minha própria história. Até que a vida seguiu e 2 meses depois voltei a trabalhar no Rio.
Em algum momento dos próximos meses, decidi fazer a viagem ancestral e pisar no solo de meus antepassados e aí que a novela começou. Fui pesquisando todos os cantos que queria ir baseado na história de minha família e perguntei para minha avó de onde na Alemanha que nossa família era pois queria visitar, mas ela não soube me responder, só disse que o pai dela comentava muito de um lugar que ele viveu chamado BELGRADO. Eu fiquei encucada com isso porque Belgrado fica na Sérvia e não na Alemanha. E foi então que começou a saga da busca de informações.
Comecei a estudar a história da Sérvia e descobri que antigamente este país fazia parte da Iugoslávia, antigo território que após a guerra se desmembrou em 7 países. Pedi então para minha avó, documentos dos pais dela para podermos confirmar essa informação, pois talvez o pai dela então fosse da Sérvia e a mãe alemã, será? Minha avó já com idade avançada não tinha como pegar as caixas lá de cima do armário sozinha para tentar encontrar documentos, então em um dia que eu fui do RJ a SP, passei na casa dela para buscar os papeis e não encontrei nada, além de um documento de seu pai confirmando que era de Belgrado.
Bom, mistério da origem dele desvendado, mas ainda assim, eu não estava satisfeita. Queria resolver a pulga atrás da orelha que dizia “o que a Alemanha tem a ver com tudo isso?”. Depois das buscas sem sucesso, minha mãe e tia se perguntaram onde poderiam estar os documentos, pois estavam me ajudando com isso. Até que minha avó se lembrou que uma prima que morava distante tinha pedido emprestado os documentos muitos anos atrás para tentar tirar cidadania e nunca devolveu.
Nesse momento eu já me sentia com um balde d’água sob minha cabeça porque parecia aquele desenho de gato e rato, que você corre atrás de uma coisa e ela vai constantemente escorrendo pelas suas mãos quão mais perto fica.
Minha mãe então ligou para essa tia, mãe da prima que estava com os documentos, e pediu para ela nos enviar, mas também por ser idosa, não soube fazer isso, nem sequer mandar fotos; e a solução então foi esperar chegar o aniversário de minha avó em julho para eles virem para a festa e trazer os tais papeis.
Pensa na minha ansiedade para esperar esses meses todos por uma resposta.
O tempo passou e toda oportunidade que eu tinha, falava para minha mãe lembrar a tia de não esquecer de trazer os papeis, pelo amor de Deus. E não é que deu certo? Os documentos finalmente chegaram e logo fui conferir a origem dos dois. Esse processo foi muito lindo porque ter documentos antigos guardados é uma raridade; ainda mais com a quantidade de informações que tinha ali: passaporte com todos os carimbos do trajeto que fizeram para pegar o navio para o Brasil, identidade brasileira, cursos que fizeram, primeira casa que moraram chegando no porto de Santos, em São Paulo. Enfim, muita coisa mesmo.
Quando concluí minhas pesquisas e traduções de todos esses documentos que estavam em idiomas diversos e que eu não falo nenhum deles, tive que dar a notícia para minha família e principalmente para minha avó - vó, seus pais não são alemães. Os dois nasceram em territórios antes mesmo da formação da Iugoslávia. Sua mãe nasceu em uma região que hoje é da Croácia. Seu pai nasceu em uma região que hoje é da Sérvia. Os dois locais fizeram parte da Iugoslávia, mas antes eram do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (futura Iugoslávia) e suas terras estavam sob o Império Austro-Húngaro, com forte presença alemã. Daí a explicação de tanta influência alemã em sua cultura e que te fez acreditar que seus pais vieram de lá.
Levou 96 anos para minha avó descobrir onde seus pais verdadeiramente nasceram.
Isso explica porque no envelope que minha prima entregou estava escrito “Sérvia”, como se a busca de documentos alemães para conseguir tirar o passaporte também tivesse a levado a novos descobrimentos.
Sérvia, Croácia, aí vamos nós.


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