Você tem medo de viver a vida?
- Bruna Ventre

- 20 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 22 de dez. de 2025
Uma vez, por conta de um relacionamento abusivo que estava vivendo, eu me perguntei o seguinte: Se o medo não me tira daqui, eu quero continuar vivendo assim para o resto da vida?
Eu te recomendo a se fazer a mesma pergunta sobre qualquer situação complicada que possa estar passando. Será que você está pronto para ter a rotina que você tem hoje pra sempre e ficará feliz com isso? Se a resposta for “não sei” ou “acho que não”, bora refletir juntas e me diz se isso te soa familiar.
Você está lá vivendo sua vida, mas se sente deslocada, com a sensação de que seu eu interno está tentando mostrar que algo não está legal. Você então, ignora, finge que não ouviu, mas sua intuição começa a gritar. Até que essa voz se torna tão alta que você não pode mais ignorá-la, porque esse sintoma de mal estar começou a refletir no seu corpo — ansiedade, insônia, dor, alergia, como se fosse um farol piscando e te dizendo "ei, olha pra mim, para de fugir, eu tô aqui". E quando você finalmente aceita que vai tomar coragem e olhar para isso - pronto, o caos começa.

Aconteceu comigo exatamente assim lá em 2019 e eu não conseguia entender o porquê, já que aparentemente a vida estava boa. Eu era noiva e já morava com ele no apartamento alugado, enquanto o que tínhamos comprado não saía. Eu tinha um trabalho estável finalmente, depois de ralar muito desde os 14 anos para conseguir um emprego e salário decentes, que me dessem certo conforto. Eu tinha um carro pra sair no final de semana, amigos de longa data que nos víamos com frequência e uma família unida.
Tudo parecia dentro do plano da Bruna adolescente que com 15 anos colocou na cabeça uma meta de salário e cargo para atingir até os 30 anos, só que eu tinha atingido aos 29 e na teoria - eu tinha que estar feliz - só que na prática, estava bem difícil dormir. Mas se estava tudo caminhando como planejado, o que poderia estar errado?
Era isso que eu me questionava nas noites de insônia quando percebia que o problema talvez estivesse bem ali - com a pessoa ao meu lado. Mas eu ia acreditar nisso? Jamaaais, afinal você não desiste de um noivado e mulheres são ensinadas que relacionamentos têm seus momentos difíceis e que a gente tem que resistir, não importa a circunstância. Lembro muito de me falarem assim: mulher não pede divórcio.
Tá, mas então porque eu me sentia tão deslocada deitada naquela cama?
Foi aí que eu vi que eu não ia conseguir lidar com isso sozinha e precisava de ajuda. Minha sorte foi que eu já tinha feito terapia antes, então eu sabia que isso poderia me ajudar e também estava aberta a viver este processo - porque um passo muito importante sobre nós é: aceitarmos que temos um problema e, mais ainda, aceitarmos que precisamos de ajuda para lidar com esse problema.
E lembra que eu falei que já estava vivendo num certo conforto? Então, tive o privilégio de ajustar a grana aqui e ali para incluir a terapia como prioridade e, a partir disso, começou um longo processo de muito choro e descobrimentos nas sessões.
Várias máscaras da Bruna foram caindo e eu entendi que a vida estava ok, mas o relacionamento não. Aí veio o fundo do poço. Uma sensação de sufocamento enorme, falta de ar, dores no corpo, ansiedade, alergias. Eu não sabia como e porquê me tirar dessa situação. Inclusive, levou anos, depois desse término, para eu me curar de tudo que aconteceu nos 4 anos juntos e até mesmo pra eu entender as coisas que tinham passado ali que durante o relacionamento eu não via com clareza.
Só que uma coisa importante pra compartilhar é: ninguém, nenhuma pessoa do meu entorno sabia disso, eu não tinha coragem de falar porque nem sabia como explicar. Além da terapeuta, ninguém notava nada, eu fingia estar em perfeita ordem até me entender um pouco mais a cada sessão.
A terapia virou tipo uma lixeira emocional. Eu despejava tudo, tudo que estava dentro de mim e me fazendo apodrecer. Chorava, falava, chorava mais...era uma coisa incontrolável e parecia que não ia caber tudo do que eu ainda tinha pra colocar pra fora nessa lixeira. Eu me sentia tão mal que eu resolvi buscar mais ajuda, desesperada juntando todas as forças externas que eu podia para ter coragem de viver esse processo de luto que, te afirmo, aconteceu durante o relacionamento.
Fui buscar ajuda mística e recebi uma mensagem que me deu um nó na cabeça:
“Em 1 ano, sua vida vai mudar completamente. Você não vai estar mais nesse relacionamento, nem nessa casa, nem nesse trabalho, nem nessa cidade”.
Sua vida pode mudar, mas você tem o livre arbítrio para decidir o que quer. Pode ficar como está ou ter coragem e seguir.
Eu fiquei tipo: “Oi? Como assim?”
Eu fui lá buscando uma simples resposta de “eu termino ou não essa relação” e me vieram coisas que eu nem esperava e nem queria escutar. E pior, que me trouxeram ainda mais dúvidas, por exemplo, eu não quero sair do meu emprego, eu amo o que eu faço, adoro minha rotina, minha vida está aqui, eu amo viver em São Paulo, porque mudar tudo? Será que eu vou ser mais feliz com essas mudanças?
Para mim é difícil visualizar algo quando não se viveu ainda, mas continuei vivendo e esqueci disso. Segui a rotina de casa, trabalho, amigos, família e terapia semanalmente. Até que chegou uma hora que eu não tinha mais muita coisa para depositar na lixeira e começou um movimento contrário, de eu entender as situações e avaliar o que eu queria de verdade para mim.
Eu ainda tentei conversar com o ex algumas vezes sobre o que não estava legal, dizendo como me sentia para tentar mudar o único cenário que parecia mais perto de acontecer, mas a real é que você só controla a si mesmo, o outro, depende do outro.
Nessa época, eu já estava mais fortalecida e nunca vou esquecer do fatídico dia: Eu saí da sessão de terapia que fiz logo pós trabalho, peguei o metrô e depois o ônibus para voltar para casa, mas essa volta não foi como outro dia qualquer, ela foi decisiva. Imagina isso: eu estava em pé me segurando na pilastra próxima ao cobrador, o ônibus lotado, eu estava pensando na vida e tudo o que tinha conversado na sessão, até que me veio:
É hoje!
Se eu não fizer isso agora que saí da terapia e estou empoderada, só terei coragem na próxima sessão. Não quero mais, vou me tirar dessa relação abusiva e vai ser agora.
Eu desci no ponto, andei até o prédio, entrei em casa, fechei a porta, ele estava sentado no sofá vendo tv.
Eu falei: "Oi, a gente precisa conversar".
1 mês depois: estava de casa nova.
8 meses depois: pedi demissão, do meu emprego, até então, dos sonhos.
11 meses depois: nem na cidade eu morava mais.
Sabe aquela pergunta que me perseguiu por várias noites de insônia:
Se o medo não me tira daqui, eu quero mesmo viver assim pra sempre?
Eu disse: não.
Os próximos passos depois dessa resposta, não foram fáceis, foi uma construção que levou meses e todas as noites ao longo desse período, eu dormia com medo de não estar fazendo a coisa certa e então, me levava a afirmar que também há muita coragem em buscar o melhor pra si - seja lá qual seja este melhor no seu caso.
E eu sabia que se eu buscasse uma resposta, minha voz interior ia mostrar o caminho, como ela mostrou. Toda vez que eu seguia construindo os porquês do término da relação, ela se acalmava e ficava mais em paz. Nos dias que eu estava com meus pensamentos focados em manter a relação, ela se desesperava e me deixava sufocada, agitada.
Por isso que o luto acabou pra mim quando a gente de fato terminou e foi cada um para o seu lado, porque eu já tinha vivido esse processo durante - e praticamente sozinha. E ele, no fim, já sabia que a gente ia terminar.
Eu tenho total consciência que se não fosse pela terapia, talvez eu não estaria aqui contando essa história hoje e estava lá, na mesma, mas eu tive essa escolha e sei que nem sempre as pessoas têm. Por isso é tão importante conversarmos aqui e nos demais espaços a papos similares, porque é uma forma de a gente ajudar a cuidar do outro que pode estar em um momento conturbado e não conseguindo enxergar a situação de forma adequada.
Ah, e esse texto não é pra te dizer “termina seu relacionamento” ou “larga tudo”. Eu usei de exemplo minha história para ilustrar e te convidar a olhar para a sua vida e se perguntar:
“Se o medo não me tira daqui... eu quero viver o resto da vida assim?”
Se a resposta for não:
O que me incomoda?
Como eu quero e mereço viver?
O que posso fazer para mudar minha realidade?
Em seguida, escute seu corpo e comece a reparar como aquela voz que grita na nossa mente se comporta a cada novo movimento, se ela inclina mais para um lado com boas energias, ou se para o outro, te trazendo um alerta.
Algumas perguntas e sensações trazem respostas que só a gente pode nos dar, então fica com elas até nosso próximo papo. Até mais!




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